Henrique Narciso “Dito”

Depois da fase em que a produção cinematográfica em Angola registou um interregno de cerca de 16 anos, eis que, no início do ano 2000, surge uma geração de jovens cuja coragem e determinação foram preponderantes para o “ressurgimento” do cinema, feito no país, por angolanos. Henrique Narciso “Dito” foi um dos precursores deste movimento, juntamente com Francisco Cáfua, Bijú Garizim e Olson Manuel. O ano de 2005 marcou o início de uma nova página no audiovisual do país, quando estes realizadores lançaram os seus primeiros filmes. Amigos, foram-se apoiando num caminho que foi feito com enormes dificuldades.

O primeiro grande êxito desta geração foi exactamente Assaltos a Luanda, de Henrique Narciso Dito.

Ele começa por nos confessar que esteve quase a desistir do cinema quando estava rodar a sua primeira obra porque não tinha quaisquer apoios. “Estava muito difícil rodar o filme. O único dinheiro que tinha à disposição na altura era o das filmagens de casamentos. Eu usava este capital para suportar outras despesas tais como a alimentação dos actores”, diz o realizador, acrescentando: “Quando não filmava casamentos não tinha dinheiro para rodar o filme. Uma vez, quando faltou dinheiro, tive mesmo de “usar” as economias da minha esposa, sem que ela se apercebesse claro. Só não desisti graças aos conselhos da minha esposa e dos actores que interpretaram os papéis de Talibã e King. Disseram-me várias vezes, “tu já gastaste tanto dinheiro, já te sacrificaste tanto e vais desistir agora que estás quase a acabar”. Na altura já tinha cerca de 80% do material gravado. Isso fez pensar-me e deu-me força para continuar”. A respeito do cinema feito em Angola e do facto de algumas películas não estarem nas salas de cinema com regularidade, Henrique Narciso “Dito” declara: “ As pessoas precisam de perceber que para fazer sucesso no mundo do cinema ou da ficção no nosso país, é necessário reproduzir para o grande ecrã a nossa realidade em vez de importar as realidades, culturas, histórias e valores de outros povos. Temos de destacar as nossas linguagens, as nossas histórias. Porque o angolano gosta de ver as cenas do seu quotidiano reproduzidas no cinema.

Se assim for, seja qual for o preço cobrado por sessão, as pessoas irão encher as salas”. A verdade é que o cinema angolano debate-se com falta de meios. E isso pode ter reflexos directos na qualidade dos filmes. O realizador explica melhor o problema: “Esta falta de meios afecta a qualidade porque o cinema tem de ser feito por uma equipa e nós, nos nossos filmes, somos realizadores, directores de casting, directores de fotografia, directores de montagem, directores executivos e operadores de câmara. Tudo ao mesmo tempo. No entanto, se houver mais dinheiro, poderemos contratar uma equipa com todos estes elementos. E assim ter maior concentração na realização ou produção. Este é um dos principais factores que quebram a qualidade das nossas obras cinematográficas”. Henrique Narciso Dito acrescenta sobre as dificuldades em mostrar os seus filmes. “Para se ter uma ideia do quanto é caro, repare que arrendar uma sala de cinema são 3 mil e quatrocentos dólares, ao que se acrescenta o custo da deslocação do elenco e o pagamento a todo o pessoal envolvido no processo. Embora no conjunto de sessões dos Assaltos a Luanda tenha arrecadado cerca de 80 mil dólares, na hora da distribuição fica-se com muito pouco. Para não falar dos custos da publicidade. No canal 2 o preço de uma semana de promoção varia entre 6 e 8 mil dólares. Fica muito pouco. Mas temos de reconhecer que o cinema angolano pode ser mais forte e render muito mais se tivermos mais patrocínios e se criarmos uma indústria cinematográfica profissionalizada em todas as áreas da produção”.

Explique nos como começou esta aventura no cinema

Embora já trabalhe para a televisão pública de Angola (TPA 1) há 10 anos, comecei a dar os primeiros passos em termos de produção e realização cinematográfica há 5 anos com Assaltos em Luanda. Em 2005 participei e venci na primeira edição do Filme do Minuto, o primeiro festival angolano do cinema realizado pela Alliance Française de Angola, no qual também participaram grandes produtoras como a Óscar Gil Produções. Após a entrega do prémio a apresentadora conversou comigo E disse-me o seguinte: “Dito, se conseguiste contar uma história em apenas um minuto podes muito bem fazer uma curta metragem bem maior, ou mesmo uma longa metragem…” Isso deu-me bastante confiança.

Qual era o prémio e qual foi a sua utilidade?

O prémio era um curso de realização na cidade francesa de Mahol, onde confesso que aprendi muito. Também fazia parte do prémio um estímulo monetário de 15 mil dólares. Quando cheguei a França mostrei à minha professora o meu projecto do filme Assaltos em Luanda. Na altura já tinha concluído 70% das filmagens. Ela ao ver disse-me que tinha futuro no mundo da realização pois já conhecia os elementos essenciais da linguagem cinematográfica, mas faltavam-me algumas noções que ela me transmitiu.

Quando regressou aplicou todos os conhecimentos adquiridos em França na conclusão do filme?

Não. Porque alguns factores básicos dependiam da qualidade do material que estava a utilizar e, por outro lado, se tivesse de os aplicar a todos teria de refazer um filme que já estava quase pronto. Tudo tinha sido feito sem apoios. Assaltos em Luanda foi feito a base de muito sacrifício.

A situação alterou-se?

Hoje já tenho material de ponta. Acabo de chegar do Dubai onde fui comprar material cinematográfico. Câmeras de alta definição, stake cam e, todo o material necessário para começar a rodar a primeira mini-série infantil angolana.

Vai dedicar-se à produção de séries e novelas?

Sim. Eu trabalho no departamento de ficção da TPA há 10 anos. Durante este tempo tive a oportunidade de trabalhar em muitas novelas da nossa televisão. Aprendi muito com realizadores como o falecido Pedro Ramires, o cubano Reinaldo Cruz em Pecado Original, Tomás Ferreira, o “Walter” das telehistórias da TPA. Já trabalhei também com o Reinaldo Bury, realizador da novela Minha Terra Minha Mãe. Enfim, tenho mais experiência neste ramo do que no cinematográfico. Mas não penso deixar de fazer cinema.


Que avaliação faz da ficção angolana ?

É necessário que se aposte na formação da juventude. Na minha opinião, a nossa ficção é dominada por realizadores estrangeiros e é por isso que não reflectem o espírito e a realidade do angolano. Não quero com isso dizer que temos de deixar de contratar operadores e realizadores brasileiros ou americanos, pois estes têm muito para nos ensinar. Mas devemos garantir que eles transmitem o conhecimento aos nossos profissionais. Muitas vezes, em vez disso, fazem o que tem que fazer e vão-se embora levando consigo o conhecimento.

É necessário formar os nossos quadros porque há aqui muita gente com potencial, a quem caso lhes seja dada uma oportunidade, podem ser tão bons quanto aos brasileiros ou americanos. Só é preciso que se aposte e se acredite na prata da casa. Resumidamente, penso que a nossa ficção tecnicamente e materialmente está boa, mas é muito enfadonha. O angolano gosta de mais dinâmica. Temos que “dar vida” às nossas séries e novelas. Os realizadores têm de ser mais criativos e, ter em conta as marcações, o que é muito importante. Marcação é sobretudo dinâmica, diferente da estática enfadonha que se observa nas nossas novelas e no nosso cinema.

Fale um pouco dos seus novos projectos?

Tenho a agenda preenchida até 2011. Mas neste momento estou a trabalhar no filme

A Guerra do Kuduro. Conta a história do kuduro, como se espalhou por toda Angola e pelo mundo, os espaços que percorreu para conquistar o seu espaço. Comecei a rodar as filmagens em Dubai. Quando regressei, tive de fazer algumas alterações ao guião. Já estão seleccionados todos os actores mas, estou a estudar a possibilidade de incluir as verdadeiras “estrelas” do kuduro no filme, porque terá mais impacto se elas participarem. Queria que eles fossem interpretados por actores, mas estou ainda a estudar qual será a participação dos verdadeiros kuduristas no filme.

Quem poderemos ver neste filme?

Estou a pensar em convidar os Lamba, o Puto Prata, o Lilás, os Buraka Som Sistema. Mas ainda não os contactei. Como disse estou a estudar os moldes das participações de todos estes artistas no meu novo projecto.

Agenda até 2011…?

Este ano sai A Guerra do Kuduro. A seguir vou rodar um drama, cujo guião já está pronto há muito tempo, intitulado O Homem Branco. Estava para ser gravado a seguir a Assaltos em Luanda 1, só que as pessoas diziam que não queriam ver drama. Outros iam ainda mais longe dizendo que não gostaram do fim e que o filme devia ter uma continuação. Acabei por aceitar essas opiniões. Por isso digo sempre que Assaltos em Luanda 2 não estava na agenda. Foi a pedido do público que criei o filme. Há até quem queira uma terceira parte. Mas agora vou variar e já tenho apoio da JMPLA que me concedeu 160 mil dólares para o novo projecto.

Será feito com outros meios?

Olhe que eu vou apostar neste filme para ganhar um Óscar. Estou a trabalhar todos os aspectos técnicos. É o meu filme com o maior orçamento Estou a preparar-me para vencer o meu primeiro festival internacional e, este filme vai para Cannes (risos).


Quais são os factores que lhe transmitem tanta confiança?

Primeiro porque tenho apoio suficiente para fazer o filme e, será o primeiro em que terei uma equipe, onde não terei de exercer todos os cargos directivos. Vamos fazer casting em Portugal no final do ano para o actor principal. Vou trabalhar com um dos melhores directores de fotografia que conheço, o Quintino, um brasileiro que conheci na TPA. Outro factor que me transmite confiança é a experiência e maturidade que possuo hoje. Já não sou o realizador inexperiente dos primeiros tempos.

Em que festivais participou?

Assaltos em Luanda girou o mundo. Foi ao Festival Ibero-Americano do Cinema em Lisboa, foi ao Brasil, esteve no Festival Pan-Africano do cinema em Uagadogoou, no Burkina Faso e, no Primeiro Festival Internacional do Cinema da Zâmbia. Se houvesse classificação, os nossos filmes estariam entre os primeiros classificados.

Que feedback recebeu por parte do público e dos realizadores internacionais?

O feedback foi muito positivo. Houve festivais onde me perguntaram “de onde vens” e “qual é o teu filme”. Quando eu dizia o nome, eles ficavam radiantes e usavam as expressões do filme. Sinal que tinham visto e gostado. Até os zambianos, que viram o filme sem tradução, usavam expressões como mbaya e galheta, muzubia e wazebele. Os elogios que recebi fazem de mim um homem confiante.

PERFIL

Nome: Henriques Deves Narciso “Dito”

Idade: 35 anos

Profissão: Profissional da televisão pública de Angola desde 1994, onde comecei como operador de câmara. Actualmente sou realizador do programa Conversas

no Quintal. Também trabalho como director de montagem de programas como Vozes do Semba.

Estado civil: Casado no registo civil

e religioso com a principal culpada

pelo meu sucesso

Filhos: Três

Comida: Fumbua com funge

Bebida: Embora não dispense uma cerveja bem fresca, prefiro o whisky velho. Quando era mais pobre só bebia whisky novo. Agora que já tenho um bocado só bebo whisky velho (risos)

Melhores realizadores de cinema: Para mim são o Steven Spielberg e o Mel Gibson. Pelo seu grande poder de criação e a capacidade de contar a história em vídeo

Filmes realizados: Situações Inesperadas, Assaltos em Luanda 1, Alta Temperatura

e Assaltos em Luanda 2

Projectos futuros: A Guerra do Kuduro

(sai este ano), Jesus Cristo Negro e O Homem Branco. De agora em diante, os meus filmes já não vão demorar muito tempo porque tenho mais apoios financeiros.

Postado por Lutero Lawliet 13 de Outubro de 2009

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4 Respostas to “Henrique Narciso “Dito””

  1. ola Henrique Narciso “Dito”!
    eu sou a Denise Nicols, Mocambicana,tenho acompanhado o trabalho excelente que tens feito por isso resolvi quero partilhar o meu sonho, crescendo do seu lado(profissionalmente) eu escrevo-te para te pedir ajuda para que eu possa divulgar meu trabalho como realizadora e produtora, escrevo roteiro de filmes e seriados(novelas)peco-te por muito para me dares um sinal por favor, preciso muito da sua ajuda, o meu contacto é 258823113883 Denise mocambique, por favor nao ignore esse pedido.continuacao de um bom trabalho para si

  2. Ola Dito,

    Sou o Amadeu trabalho com TI tenho um projecto de um filme tecnológico tenho tentado entrar em contacto consigo agradecia que entrasse em contacto comigo tão logo que ver este post.

    Aqui seguem meus contactos:

    MSN: amadeuschool@hotmail.com

    Tel: 244933697945

  3. Boa tarde Hnrique Narciso. Gost muito dos filme que tu realizas, princpalmente da guerra do kuduro, fique bem.

  4. Emanuel Alfredo de Morais Says:

    Olá Dito, eu sou o Emanuel Morais, amo muito o seu trabalho e a sua vontade de trabalhar, na minha opinião você e o Mawetu paciência são os melhores realizador do nosso mercado, voces transmitem o força Angolana para o país e pelo mundo inteiro, eu tenho 20 anos e também estou a me infiltrar nesta área, mas pra isso terei que contar com a tua ajuda, nesse caso em ser o teu assistente, me ajuda por favor! este é o meu contacto: 937221321.

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